“A rua te acolhe, a rua te ensina a sobreviver…”

A história de Neide Vita: a poetiza da rua

Onze anos. Esse foi o tempo que Neide Vita morou na rua. De sorriso largo e estatura baixa, o bom humor e o brilho no olhar dessa mulher de 52 anos não deixam transparecer o sofrimento que já passou na vida. Com uma infância marcada por abusos e abandono, aos 17 anos e grávida, se viu sem amparo de sua família biológica e adotiva. Para fugir da violência, a adolescente viu a rua como refúgio. Com uma mochila e uma mala, foi parar na Praça da

Sé, centro de São Paulo. Decidiu que a rua seria seu novo lar, e foi. Era o único lugar do mundo em que ela se sentia plenamente aceita. “A rua ensina, a rua é mãe”, afirma. A droga e o álcool vieram no quinto ano e foram a válvula de escape para aplacar a dor e os dias difíceis, uma fuga da realidade. Mas foi também na rua que conheceu o real sentido das palavras família e companheirismo. Das adversidades, tirou lições. “Eu aprendi que na rua a gente não dorme! Quando dorme é durante o dia, porque a cidade está em movimento”. Ela gostava das praças por ser um lugar no meio das árvores que passa tranquilidade. E foi na Praça da Sé, lugar tão emblemático para ela, que Neide escolheu para fazer a entrevista, embaixo de uma árvore. O dia era, coincidentemente, 19 de agosto, Dia de Luta da População em Situação de Rua.

Neide Trecheiro siteA mistura de emoções que permearam sua cabeça foi visível quando chegamos à praça e ela relembrou com certa melancolia – e talvez até com uma ponta de nostalgia –, daquela tarde que mudou o rumo da sua vida. Hoje, no aniversário de 10 anos de saída da situação de rua, ela atua ativamente defendendo os direitos humanos e a dignidade de pessoas que estão nessa condição. Artesanato, eventos voltados para mulheres e autoestima, suporte para talentos e incentivo à artistas que estão camuflados pela marginalização são algumas das ações das quais ela faz parte. Mas, como ela diz, “sempre agindo em comunidade, em conjunto”, é assim que se pode lutar, quando a união acontece. Essa “poetisa da rua” encerrou a nossa conversa com uma reflexão da imensidão da rua e da singularidade da história de cada um: “No mosaico da vida da população em situação de rua, a minha é só uma peça”. Atualmente, Neide é integrante do Comitê Intersetorial da Política Municipal para População em Situação de Rua da Prefeitura de São Paulo e educadora social no Refeitório Pena forte Mendes, gerido pela Associação Rede Rua. Administra uma página no facebook denominada de “Mulher/Amor e Poesia”. Neste espaço expressa suas poesia se pensamentos.

Marina Ferreira

 

Matéria publicada no Jornal “O Trecheiro” edição 241 agosto/setembro de 2016.

 

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